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São Paulo, 26/12/2006
Curso tenta deter violência entre jovens
Capacitação e esporte em bairros pobres não reduzem exposição ao crime, mas tendem a fazer com que jovem fique menos agressivo

Crédito: Luta pela Paz/Daniel Soares
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TALITA BEDINELLI
da PrimaPagina

Oferecer cursos profissionalizantes e esporte a jovens de bairros com altos índices de insegurança não diminui a exposição deles à violência, mas tende a fazer com que eles pratiquem menos atos agressivos (como ameaça com arma de fogo e roubo). É o que indicam os resultados de dois projetos pontuais implantados em favelas das duas maiores metrópoles brasileiras (São Paulo e Rio de Janeiro).

Nos dois casos, os jovens inscritos nos projetos envolveram-se mais em infrações como arrombamento e briga na escola, em comparação com moradores dos mesmos bairros na mesma faixa etária. Mas praticaram menos os atos mais violentos.

O projeto carioca, chamado Luta pela Vida, é desenvolvido no Complexo da Maré (Zona Norte do Rio de Janeiro) e oferece aos jovens atividades esportivas como boxe, capoeira e luta livre, bem como aulas de cidadania, inglês e informática. Ele começou o ano com 180 inscritos, mas ficaram até o final 136. Em São Paulo, o projeto chamado RAC (Redescobrindo o Adolescente na Comunidade) é aplicado no Jardim Ângela (zona Sul de São Paulo) e abrange oficinas profissionalizantes de cabeleireiro e pizzaiolo, cursos de inglês, hip-hop, música e teatro, além de acompanhamento de psicólogos e assistentes sociais. Este ano, 131 jovens se inscreveram, 97 permaneceram.

As duas atividades foram estudadas a pedido do AVPP (sigla em inglês para Projeto de Prevenção à Violência Armada), feito pelo PNUD e pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e que tem como objetivo agrupar iniciativas bem-sucedidas de combate à violência armada e disseminá-las.

A ação no Jardim Ângela foi avaliada pelo NEV (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo); a da Maré, pela Fundação Osvaldo Cruz. Ambos seguiram a mesma metodologia: fizeram pesquisas qualitativas e quantitativas com os grupos participantes dos projetos e com adolescentes de uma escola pública, dentro do mesmo bairro das ações, que não tinham relação com os programas analisados, para ter uma base de comparação.

Em comparação com o grupo da instituição de ensino, os jovens envolvidos com a atividade do Jardim Ângela receberam menos dinheiro por bens roubados (1,9%, contra 3,2%), não foram presos por vender drogas (enquanto 1,1% dos estudantes foi) e roubaram menos (3,8% contra 8,5%). Além disso, fizeram menos ameaças com armas de fogo (1,9%, contra 2,1%), apesar de terem declarado ter mais acesso a armamentos desse tipo (17,9%, contra 11,7%).

Mas outros tipos de atos violentos considerados “mais leves” pelos pesquisadores foram mais freqüentes entre os adolescentes ligados ao RAC — alguns deles cumprindo medidas socioeducativas. Eles participaram mais de brigas nas escolas (48,1%, contra 28,2%), começaram mais brigas (30,2%, contra 21,8%) e arrombaram mais algum local para roubar (3,4%, contra 1,1%). O envolvimento com o tráfico de drogas também foi maior neste grupo (1,9%, em comparação a 0,5%).

Os resultados foram similares entre os jovens envolvidos com a atividade no Complexo da Maré. Os jovens do projeto roubaram menos (4%, contra 7,1%), receberam menos dinheiro por bens roubados (5,9%, contra 7,2%) e não ameaçaram ninguém com arma (enquanto 2,4% dos estudantes, sim). Eles também brigaram mais (38%, contra 19,3%), começaram mais brigas (28%, contra 16%), arrombaram mais para roubar (2%, contra 1,2%) e envolveram-se mais com o tráfico (2%, contra 0).

“Os meninos do projeto são mais expostos à violência do que os outros, têm mais parentes assassinados e mais amigos que andam armados. E, mesmo assim, o cometimento de violência deles é mais leve, eles brigam mais nas escolas, por exemplo, mas não andam armados. E eles, inclusive, têm acesso mais fácil a armas de fogo”, comenda Edinilsa Ramos de Souza, coordenadora da pesquisa pela Fundação Osvaldo Cruz (que pesquisou o Complexo da Maré). “Esse jovem não está armado, embora tenha mais acesso a arma e viva em mais contato com a violência. Portanto, o projeto mantém, sim, os jovens longe das armas”, completa.

“O projeto aumenta a formação dos adolescentes, melhora a relação dos jovens com os pais e na escola. Eles passam a ter um envolvimento mais ativo na vida comunitária e os ajuda a se preparar para o futuro e a inseri-los no mercado de trabalho”, avalia Maria Fernanda Tourinho Peres, pesquisadora do NEV e coordenadora do estudo. “Mas o efeito é mais no longo prazo. É pedir muito que o RAC interfira na exposição dos jovens à violência, porque eles estão no Jardim Ângela”, acrescenta.

Projetos

O bairro do Jardim Ângela, onde é desenvolvido o RAC, é um dos mais violentos de São Paulo, de acordo com o NEV. Mas, devido principalmente ao envolvimento da própria comunidade, tem sido possível reduzir as taxas de mortes por homicídio. De 2001 para 2005, a taxa de mortalidade por assassinato caiu 63% (de 110,6 por 100 mil habitantes para 40,8). Entre os jovens de 15 a 24 anos, porém, o recuo foi menor, de 46% (de 191,33 por 100 mil para 103,8). O projeto começou a ser desenvolvido pela organização não-governamental Sociedade Santos Mártires em 1999 e oferece as oficinas para jovens entre 12 e 21 anos.

O Luta pela Vida lida com jovens entre 7 e 25 anos. No Complexo da Maré, 13% da população acima de 25 anos é analfabeta e 29,5% não tem o ensino médio; a renda per capta média é de R$ 216,13, e 61,4% das pessoas vivem em favelas. Assim como o RAC, o projeto busca dar conhecimento aos jovens sobre direitos e deveres, fortalecer os vínculos familiares e favorecer a inserção no mercado de trabalho.

 
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