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São Paulo, 18/11/2005
Número de pobres só não cai entre negros
Total de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza recuou 5 milhões de 1992 a 2001; entre negros, houve aumento de 500 mil

Crédito: Reprodução
De Norte a Sul, negros são mais pobres
O relatório do PNUD revela que, independente da região do Brasil e de seu grau de pobreza, os negros são sempre os mais prejudicados.

No Nordeste, onde 57,4% da população é pobre, o percentual de negros que vivem abaixo da linha da pobreza (renda per capita inferior a R$ 75,50, em valores de 2000) é de 61,9%, enquanto que o de brancos é de 46,9%. Entre os total de nordestinos pobres, mais de três quartos (75,6%) são negros.

Na região com a menor proporção de pobres — o Sudeste (21,5%) — a situação é a mesma: quase um terço (32,1%) dos negros estão abaixo da linha da pobreza, condição de apenas 15,6% dos brancos. Entre o total de pobres, 53,5% são negros e 46% brancos.

A única região em que os negros não são maioria entre os pobres é o Sul, onde 10,5% da população vive abaixo da linha da pobreza. Do total de sulistas pobres, 73,6% são brancos e 25,9% negros. Mas isso não significa que eles sejam menos prejudicados: de todos os negros que vivem no Sul, 38,9% são pobres, enquanto que entre os brancos a taxa fica em 20,4%.

No Norte, os negros são 78,8% dos pobres, e os brancos, 21%. Na região, 44,3% da população vive abaixo da linha da pobreza.
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A pobreza no Brasil diminuiu significativamente na década de 90. O número absoluto de pobres (pessoas com renda per capita inferior a R$ 75,50, em valores de 2000) encolheu em 5 milhões entre 1992 e 2001. Esse indicadores, no entanto, ocultam uma realidade perversa: no mesmo período, o total de negros pobres, na contramão da tendência, aumentou em 500 mil. Ou seja, para cada 11 não-negros que escaparam da pobreza, 1 negro ficou pobre.

Os dados são do "Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 — Racismo, pobreza e violência", lançado nesta sexta-feira pelo PNUD no bairro de Capão Redondo, na periferia de São Paulo. O estudo aponta que, apesar do crescimento da renda verificado nas últimas décadas, o percentual de negros pobres nunca ficou abaixo de 64%. Além disso, em todos os estratos a proporção de negros é inversamente proporcional à riqueza: quanto mais alta a faixa de renda, menor é o percentual de negros que a integra. Embora sejam 44,7% da população total, os negros são 70% entre os 10% mais pobres e não passam de 16% entre os 10% mais ricos.

A persistência dessa desigualdade cria abismos equivalentes a quase uma geração. Com base nos Censos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o relatório conclui que a renda per capita média dos brancos de 1980 (R$ 341,71, em valores corrigidos) era mais do que o dobro do ganhos dos negros em 2000 (R$ 162,75). Ao longo dessas duas décadas, a renda média dos negros aumentou pouco mais de R$ 30, subindo de R$ 132,32 para 162,75. Já o incremento para os brancos foi mais que o dobro, de quase R$ 65, o que fez que o indicador subisse de R$ 341,71 para R$ 406,53. Os dados ainda mostram que, no período analisado, a diferença econômica entre os dois grupos se manteve praticamente inalterada, com a renda dos negros equivalendo a não mais que 41% da dos brancos.

O abismo social que separa brancos e negros fica igualmente evidente quando se observam outros indicadores citados no estudo. Do total de rendimentos apropriados por famílias brasileiras em 2000, metade foi abocanhada pelos homens brancos. Dos 50% restantes, a maior fatia ficou com as mulheres brancas (24%), que ganham o triplo das mulheres negras (8%) e mais que os homens negros (18%). Ou seja, a população negra responde por pouco mais de um quarto dos rendimentos no país (26%), embora seja quase metade dos habitantes.

Tamanho desequilíbrio reflete, em boa parte, a desigualdade no mercado de trabalho. Apesar de as taxas de desemprego terem oscilado bastante entre 1992 e 2003, os índices desagregados por cor/raça e gênero sempre estiveram na mesma ordem, com as mulheres negras sendo as mais afetadas — grupo em que o percentual de desempregadas só ficou abaixo de dois dígitos de 1992 a 1995. Já os menos prejudicados pela falta de postos de trabalho são os homens brancos — cujo indicador nunca superou 8%. No período, a taxa para a população negra foi, em média, 23% superior à da população branca, segundo o relatório do PNUD.

Essas diferenças também se fazem notar na estrutura hierárquica do mercado de trabalho. Em 2003, 7,8% dos homens brancos eram empregadores, enquanto que entre os homens negros esse percentual era de apenas 3%. Quanto às mulheres, 13,8% das brancas trabalhavam como empregadas domésticas, ofício de quase um quarto das negras (24,2%). Essa distorção, obviamente, tem sua repercussão na folha de pagamento, “As desigualdades se manifestam ainda mais claramente quando o foco é dirigido à remuneração do trabalho”, ressalta o relatório.

Em 2003, o salário dos homens negros equivalia a menos da metade (47%) do dos homens brancos. O das mulheres negras, a 54% do das mulheres brancas. “Embora as disparidades de escolaridade entre os dois grupos tenham um papel importante nessas discrepâncias, elas não são suficientes para explicar a diferença de remuneração”, afirma o estudo. Exemplo disso é que o salário das mulheres negras que têm entre 8 a 11 anos de estudo (pessoas com ensino fundamental completo) é inferior ao de homens brancos que têm de 1 a 3 anos de estudo (ou seja, que são analfabetos funcionais).

 
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