São Paulo, 27/10/2005 ONU vai sugerir cotas para negros no Brasil
Relator das Nações Unidas para o racismo diz que ações afirmativas, em várias áreas, podem ajudar a corrigir a desigualdade racial no país
da PrimaPagina
Após visitar o Brasil por dez dias, o relator especial das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância, Doudou Diène, vai propor ao governo brasileiro que adote políticas de reparação para tentar reverter a desigualdade racial no país. “Somente as ações afirmativas podem corrigir a invisibilidade promovida pelo racismo”, destacou.
Nos últimos dez dias, Diéne passou pelo Distrito Federal e por quatro cidades brasileiras — Recife (PE), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) — e entrevistou deputados, senadores, prefeitos, governadores e até mesmo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de representantes da sociedade civil. Seu objetivo foi avaliar a situação da desigualdade racial no país e verificar os avanços obtidos desde a visita do último relator, em 1995. Aos seus interlocutores, o representante da ONU fez três perguntas: Ainda existe racismo no Brasil? Quais os progressos na política para combatê-lo? Que problemas ainda precisam ser enfrentados?
Algumas respostas causaram espanto no relator, como a de altas autoridades que disseram que não há racismo no país e que apontaram como prova o número de jogadores negros com bons salários no futebol.
Na coletiva de imprensa em que fez um balanço de sua visita, Diène disse estar “chocado” com a forte correlação entre racismo, violência e pobreza no país. “O Brasil vive dois mundos. Tem o mundo da rua, multicultural, vibrante e multirracial, que é a imagem que temos do país no exterior. Mas no que se refere às estruturas de poder, político, econômico, social e midiático, o país é diferente, caracterizado pela ausência das comunidades afro-descendentes e indígenas”, declarou, conforme relato do jornal O Globo.
O relator adiantou que vai propor ao governo brasileiro — no relatório que deve ficar pronto em novembro — a implantação de um programa de combate ao racismo. O projeto incluiria o estabelecimento de políticas de cotas não apenas nas universidades públicas, mas também em outras esferas, como a política.
Ele apontou como exemplo claro de discriminação a ausência de negros nos altos cargos administrativos de Salvador (BA), cidade em que a maioria da população é afro-descendente e onde há uma valorização da cultura africana. Apesar disso, Diène vê boa vontade por parte do Estado brasileiro no esforço para promover a igualdade racial. |