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Reportagens

Manari (PE), 07/07/2006
'Troféu' de pior IDH impulsiona Manari
Projetos públicos e da iniciativa privada tentam tirar das cinzas o município com menor Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil

Fotos: João Carlos Rodrigues
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Contra pobreza, cidadania e informática
PAULO REBÊLO
enviado especial

(fotos de João Carlos Rodrigues)

Terça-feira, 20h. Em meio à praça, jovens com um caderno debaixo do braço se escoram em uma árvore, conversando sobre a aula de Informática que acabou há pouco. Um pouco mais adiante, um trailer vende refrigerante, sanduíches e salgados para três animados grupos que parecem esperar por mais gente ainda naquela noite. Das janelas abertas nas casas ao redor, outras tantas pessoas observam o movimento ou esperam os filhos chegarem da escola. Tudo parece uma cena comum e corriqueira em qualquer cidade, mas não aqui em Manari. Há dois anos, este pequeno município no Sertão de Pernambuco parecia viver isolado do mundo. Bastava o céu escurecer para que as janelas se fechassem e a praça ficasse deserta, em desconfortável silêncio para os raros viajantes que por ali passavam.

Foi em 2004 que estivemos pela primeira vez neste pequeno município que beira a divisa de Alagoas e dista 400 quilômetros a sudoeste do Recife, só existindo como um ponto do mapa em que o Guia Rodoviário alerta, ainda hoje, os improváveis viajantes: não há estradas para Manari, apenas um trecho com 30 quilômetros improvisado de barro — e ao chegar, o motorista logo entende que não se trata apenas de barro, mas, também, de pedregulhos e rochas.

Manari tornou-se "famosa" há três anos como a cidade com o menor IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal), entre 5.507 municípios brasileiros, após a publicação do Atlas de Desenvolvimento Humano, do PNUD. Com renda per capita média de R$ 30,43 mensais, a cidade apresentava números alarmantes em 2000: 89,99% da população era pobre, 63,9% da população adulta era analfabeta, a escolaridade média era de 1,30 anos de estudo, o abastecimento de água só chegava a 16,2% da população, apenas 17% do lixo era jogado em aterros sanitários, 120,78 crianças a cada mil morriam antes de completar cinco anos de idade.

Desde então, Manari tem passado por uma transformação que, aos poucos, tenta apagar o "troféu" nada ilustre. Investimentos públicos e privados ganham corpo e tentam reverter o quadro de abandono e da falta de perspectivas da população.

Educação e desenvolvimento

Não tardou para que comitivas de políticos elevassem o município como a nova menina-dos-olhos do desenvolvimento. Projetos e mais projetos começaram a ser anunciados, desde o final de 2003 até hoje – muitos dos quais em caráter de urgência, outros mais similares às conhecidas promessas de campanha nunca cumpridas. Hoje, o improvável viajante encontra uma Manari revigorada. A alegria e as agruras do povo continuam presentes, mas o brilho nos olhos de quem, pela primeira vez, conseguiu fazer um curso de capacitação ou ter aulas de Informática, é visível de longe.

A educação sempre foi o maior problema de Manari, com aulas somente até a 8ª série do ensino fundamental. Quem se aventurasse a cursar o ensino médio (2º grau) tinha que pegar uma condução em péssimas condições até Inajá, o município mais próximo, pela estrada de barro e pedregulhos, regressando para casa somente no fim de noite. Hoje, a escola estadual voltou a funcionar, oferecendo o ensino médio e mudando completamente o ânimo dos jovens – que agora já não sonham tanto em juntar dinheiro para comprar uma passagem para São Paulo, como fizeram os seis filhos e quatro netos de seu Zacarias Araújo e Maria José de Araújo, com que conversamos durante nossa primeira visita, em 2004. "Ao menos isso a gente tem certeza que mudou. Os jovens não estão mais tão afoitos para se aventurar em São Paulo", pondera Zacarias, que atualmente convive com a saudade de esposa que, por motivos de saúde, está com os filhos, na capital paulista, em fila de espera para uma cirurgia.

Diante dos números e da péssima repercussão do IDH-M, ano passado o governo de Pernambuco resolveu destinar mais recursos ao chamado Plano Integrado de Desenvolvimento Local — não apenas em Manari, mas para a região com 11 municípios de baixo índice de desenvolvimento humano naquela mesma área: Ibimirim, Inajá, Iati, Belas, Tupanatinga, Itaíba, Paranatama, Saloá, Terezinha e Caetés, a terra natal do presidente Lula. A gestão de boa parte do dinheiro e dos programas de capacitação ficou por conta do Projeto Renascer, uma autarquia vinculada à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Cidadania. Esses programas são implantados por meio de uma parceria entre o Estado, organizações não-governamentais e empresas privadas, sempre voltados a jovens de 15 a 24 anos. São cursos de apicultura, piscicultura, horticultura, gestão de novos negócios, informática, teatro e agricultura familiar.

Dos programas listados, Manari já se beneficia de alguns. Até o final de junho deste ano, 70 pessoas foram capacitadas em teatro, piscicultura ou informática pelo Renascer. Outra parte dos jovens consegue viajar até municípios como Inajá, Ibimirim e Águas Belas, para fazer cursos como o de apicultura e agricultura familiar. No total, foram mil jovens capacitados pelo Renascer nos 11 municípios de baixo IDH-M que circundam Manari. Antes isolada dos dois lados pelas estradas de barro, Manari agora liga-se a Inajá por um asfalto limpo e liso. O asfaltamento do trecho do outro lado, de Itaíba a Manari, foi prometido pelo governo, mas até agora não há sinal de concretização. De acordo com o técnico do Renascer Gerson Victor, a obra já foi licitada e deve começar em breve.

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O jornalista Paulo Rebêlo e o repórter-fotográfico João Carlos Rodrigues foram enviados a Manari em uma iniciativa conjunta de Carta Capital e PrimaPagina.

 
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