Comércio Pode Ser uma Poderosa Arma no Combate à Pobreza

Força-tarefa pede reestruturação do sistema global de comércio, com mais “Comércio ao invés de Ajuda”, para fazer com que mercados abertos trabalhem a favor dos países pobres

17 de janeiro de 2005, Nova Iorque – A abertura do comércio entre países desenvolvidos e em desenvolvimento pode ser um poderoso motor do crescimento econômico, indispensável para reduzir a pobreza. Mas conseguir que a liberalização comercial trabalhe a favor dos países pobres vai requerer a reestruturação de um sistema que tem servido principalmente aos interesses das nações ricas, de acordo com a Força-tarefa sobre Comércio do Projeto Milênio das Nações Unidas.

O relatório lançado hoje pela Força-tarefa – Comércio para o desenvolvimento – é parte de um detalhado plano de ação global para combater a pobreza, as doenças e a degradação ambiental nos países em desenvolvimento. Ele alerta que o comércio por si só não é uma panacéia, mas que pode ser uma poderosa arma no combate à pobreza se acompanhado de mudanças complementares nas políticas domésticas e internacionais.

A Força-tarefa sobre Sistemas de Comércio Abertos e Regulados reuniu especialistas de todo o mundo, liderados pelo Dr. Ernesto Zedillo , ex-presidente do México e atual diretor do Centro para Estudo da Globalização de Yale, e o professor Patrick Messerlin , diretor do Grupo de Economia Mundial do Instituto de Estudos Políticos sediado em Paris (que também é conselheiro especial da Organização Mundial do Comércio). Eles enfatizaram que os países em desenvolvimento, historicamente, tiveram muito a perder e pouco a ganhar com a participação em acordos multilaterais de comércio.

“Tornar o sistema de comércio mais equilibrado em favor dos países em desenvolvimento pode oferecer oportunidades para o crescimento econômico e a redução da pobreza, assim como para maior participação na formulação de regras multilaterais de comércio”, diz o relatório. “Esforços urgentes para completar a Rodada Doha até 2006 podem cumprir essas promessas – longamente proteladas desde a Agenda do Desenvolvimento de Doha, de 2001 – mas os países precisam agir agora”.


O relatório da Força-tarefa recomendou ações específicas que fariam do livre-comércio um aliado, mais do que um adversário, dos países em desenvolvimento. Ações para abrir mercados devem ser acompanhadas de ações de suporte à capacidade dos países em desenvolvimento para participar de forma efetiva dos mercados globais. Elas incluem:

  • Abrir os mercados dos países ricos para as exportações agrícolas de países em desenvolvimento , com os primeiros se comprometendo a eliminar todas as tarifas sobre agroprodutos até 2010, e abolir até 2010 os subsídios às exportações, que distorcem o comércio e que são rotineiramente empregados por países industrializados para baixar artificialmente o preço mundial das commodities agrícolas.
  • Abrir mercados para produtos manufaturados , com países ricos se comprometendo a reduzir as tarifas a zero até 2015, e países em desenvolvimento se comprometendo a reduzir as tarifas até 2025. Países ricos devem oferecer o acesso, livre de tarifas, a produtos dos países mais pobres a partir de 2005.
  • Tornar mais fácil para pessoas de países pobres que trabalhem temporariamente em países ricos : o comércio de serviços oferece enorme potencial de ganhos para países em desenvolvimento, e países desenvolvidos devem fazer progressos na liberalização das leis trabalhistas.
  • Estabelecer um fundo temporário de “ajuda para o comércio” que forneceria aos países em desenvolvimento o suporte adicional de que necessitam para cumprir as novas regras comerciais; isso inclui compensações pela redução de tarifas de importação, e financiamentos para amenizar a restrita oferta de infra-estrutura e para ajudar no ajuste à erosão de acordos tradicionais de preferência.

O relatório afirma que a reestruturação do sistema para dar maior influência aos países em desenvolvimento vai aumentar o potencial de crescimento global e levar a uma maior capacidade de derrotar a pobreza em países em desenvolvimento. De acordo com a Força-tarefa, não há dúvidas de que se os países desenvolvidos abrissem significativamente seus mercados aos países em desenvolvimento, e se estes continuassem a abrir seus próprios mercados, a pobreza desapareceria mais rapidamente, especialmente em países com baixa renda. A Força-tarefa também argumenta fortemente que as discussões na OMC devem se limitar a temas que são diretamente relacionados com o comércio, que são compatíveis com os objetivos de desenvolvimento de países pobres e que se beneficiariam mais de um acordo na OMC – sugerindo que as questões de Cingapura sobre competição, investimento e compras, notadamente deixadas de fora da agenda de Doha, não devem ser incluídas em negociações comerciais futuras.

De acordo com os membros da Força-tarefa, as distintas porém relacionadas metas abraçadas por líderes mundiais – de acabar com a pobreza nos países em desenvolvimento por meio dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e estender os benefícios da liberalização do comércio a países pobres por meio da OMC – representam raras oportunidades para significativo progresso em 2005. No entanto, eles afirmam, as mudanças necessárias na frente comercial são muito ambiciosas para serem deixadas somente a cargo de negociadores comerciais, e a liderança política para o comércio deve vir dos altos escalões, incluindo chefes de Estado.


O relatório chama a atenção para a importância crítica do comércio para atingir os compromissos estabelecidos em 2000 na Cúpula do Milênio, na qual líderes mundiais concordaram em tornar a luta contra a pobreza – e todas suas facetas – sua prioridade em países em desenvolvimento. A cúpula inspirou os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, os quais foram construídos a partir do reconhecimento de que, da saúde ao meio-ambiente, da educação à igualdade entre sexos, uma lista cada vez maior de questões de desenvolvimento não pode mais ser administrada exclusivamente dentro das fronteiras de uma única nação.

As recomendações da Força-tarefa para a política comercial fazem parte do Projeto Milênio das Nações Unidas, o qual foi comissionado pelo Secretário-Geral da ONU em 2002 para desenvolver um plano de ação prático que habilite os países em desenvolvimento a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e a reverter o massacre da pobreza, da fome e das doenças que atinge bilhões de pessoas. Sob a forma de um órgão consultivo independente dirigido pelo Professor Jeffrey D. Sachs, o Projeto Milênio das Nações Unidas encaminhou suas recomendações finais em Janeiro de 2005.

A Força-tarefa sobre Sistemas de Comércio Abertos e Regulados é uma das 10 Forças-tarefa do Projeto Milênio das Nações Unidas, que juntas congregam 265 especialistas de todo o mundo, incluindo parlamentares; pesquisadores e cientistas; formuladores de políticas públicas; representantes da sociedade civil; agências da ONU; o Banco Mundial; o Fundo Monetário Internacional e o setor privado. As equipes das Forças-tarefas do Projeto Milênio das Nações Unidas foram desafiadas a diagnosticar os principais impedimentos ao alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e a apresentar recomendações de como superar os obstáculos, colocando as nações no caminho certo para atingir as metas até 2015.

Para maiores informações:

Projeto Milênio das Nações Unidas:

Erin Trowbridge, Tel: +1 (212) 906 6821, Cel: +1 (917) 291 7974 erin.trowbridge@unmillenniumproject.org

Luis Montero, Tel: +1 (212) 906 5754, Cel: +1 (347) 267 7237, luis.montero@unmillenniumproject.org

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento:

William Orme (Nova Iorque), Tel: +1 (212) 906 5382, Cel: +1 (917) 607 1026, william.orme@undp.org

Mattias Johansson (Bruxelas), Cel: + (46-70) 316 23 44, mattias.johansson@undp.org

Cherie Hart (Bangkok), Tel: + (66-2) 288 2133, Cel: + (66-1) 918 1564, cherie.hart@undp.org

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Brasil:

José Carlos Libânio (Brasília), Tel (61) 329-2040, jose.carlos.libanio@undp.org.br

Yolanda Pólo (Brasília), Tel: (61) 329-2014, yolanda.polo@undp.org.br  

Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

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