
O SETOR PUBLICITÁRIO PROSPERA, MAS OS COMPRADORES AINDA CARECEM DE INFORMAÇÃO VITAL
Aumenta a necessidade de informação, rigorosa e completa, sobre os produtos, especialmente nos países em desenvolvimento.
Brasília, 9 Setembro de 1998
Os gastos totais anuais com publicidade aumentaram 700%, desde 1950, e ultrapassam atualmente, em um terço, o crescimento da economia mundial. Embora a América do Norte, a Europa e o Japão ainda respondam pela maior parte dos 435 bilhões (estimativa) gastos no ano passado, uma grande parte do aumento das referidas despesas provém dos países em desenvolvimento, nos quais geralmente não há uma base de consumidores bem informados ou uma indústria de publicidade comercial bem regulada.O Relatório do Desenvolvimento Humano de 1998, encomendado pelo PNUD, hoje lançado em Haia e em 100 capitais espalhadas por todo o mundo, mostra que alguns países em desenvolvimento registram aumentos desconcertantes nos orçamentos publicitários. A China aumentou as despesas em 1000%, seguida pela Indonésia (600%) e pela Índia, a Malásia e a Tailândia (todas com 300%).
"Em 1986, apenas três países em desenvolvimento figuravam entre os 20 que mais gastam em publicidade no mundo", segundo Richard Jolly, principal coordenador do Relatório. "Uma década mais tarde, eram nove e, dentre esses países, poucos são os que dispõem de instituições de defesa do consumidor, dotadas de poderes adequados à proteção dos interesses do consumidor":
As estatísticas revelam que os Estados Unidos continuam a ser os que mais gastam em publicidade: 101 bilhões de dólares. Contudo, em termos de percentagem da renda nacional, a Colômbia ocupa o primeiro posto da lista: 2,6% do PIB são consagrados a tal fim. Em pelo menos mais dois países em desenvolvimento -- a República da Coréia e a Venezuela --, os gastos em publicidade, em proporção com o PIB, são superiores aos dos Estados Unidos.
O aumento dos gastos em publicidade coincide com um aumento de consumo de bens e serviços no nível mundial, totalizando um máximo de 24 trilhões de dólares, no ano passado. Enquanto a publicidade estimulou a procura de muitos bens e serviços, aconteceu também que, freqüentemente, a própria publicidade constituiu a única fonte de informação para os compradores. Na ausência de avisos acerca dos riscos associados a certos produtos, as empresas podem invocar qualidades sem qualquer fundamento científico e há produtos que chegam a um país sem que tenham sido previamente feitas quaisquer advertências acerca de efeitos a longo prazo sobre a saúde.
"A publicidade pode fornecer uma informação incompleta e que pode ser especialmente enganadora para aqueles que dispõem de poucas fontes alternativas de informação -- as crianças, as pessoas com pouca escolaridade e aquelas que lêem pouco": Os autores dizem que, enquanto as campanhas de consciencialização pública ajudaram a reduzir o ato de fumar em grande parte do mundo industrializado, a indústria do tabaco alcançou grandes progressos no mundo em desenvolvimento, onde são escassas as advertências acerca da saúde. Os consumo de cigarros per capita desceu 10% nos países industrializados entre os princípios do anos 70 e meados dos anos 90, mas registrou um salto de 64% nos países em desenvolvimento, ao longo do mesmo período. O consumo de tabaco aumentou 100% no Haiti, no Nepal, no Senegal e na Síria, e 200% nos Camarões e na China. Hoje, metade dos 3,5 milhões de mortes relacionadas com o consumo de tabaco ocorre nos países industrializados. Por volta do ano 2020, quando a mortalidade estimada atingirá os 10 milhões, então 70% das mortes ocorrerão nos países em desenvolvimento.
"As pessoas necessitam estar devidamente informadas acerca do impacto que o consumo que fazem pode ter sobre a sua própria saúde, o seu ambiente e o bem-estar dos outros" diz Sakiko Fukuda-Parr, Diretora do Gabinete do Relatório do Desenvolvimento Humano: "Os consumidores precisam de informações de apoio. Precisam estar aptos a identificar os bens e os serviços que produzem prejuízos mínimos no ambiente, que são executados por trabalhadores que não são explorados, que não são nocivos para a saúde das pessoas. Há estudos comprovativos de que os consumidores europeus estão dispostos a pagar mais 5 a 10% por produtos que respeitem melhor o ambiente".
Os autores acrescentam que as fontes que fornecem uma informação rigorosa estão a tornar-se cada vez mais importantes, dentro do processo de integração da economia global, abrem os mercados de consumo a novos produtos nos países em desenvolvimento, onde a publicidade comercial não está regulamentada e as campanhas de consciencialização pública são fracas ou inexistentes.
"A publicidade não é necessariamente má", afirma Sakiko Fukuda-Parr. "De fato, é importante informar os consumidores acerca das novas opções que estão ao seu dispor". Mas onde quer que a publicidade se revele incapaz de fornecer às pessoas um entendimento completo do impacto humano e ambiental dos bens e serviços que são estimulados a comprar, os governos e outras entidades têm de avançar, assegurando que consigam ter um quadro completo da situação. "Os consumidores têm direito à informação", acrescenta. "E quando o conseguem, podem transformar-se numa força poderosa para bem".
Acerca do Relatório:
Todos os anos, desde 1990, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento encomenda a preparação do Relatório do Desenvolvimento Humano a uma equipe independente de especialistas, com o objetivo de proporcionar a análise de questões importantes e de interesse mundial. O Relatório não se restringe à análise da renda per capita para medir o progresso humano, avalia igualmente indicadores como a esperança média de vida, a alfabetização e o bem-estar geral. Sustenta que o desenvolvimento humano é, definitivamente, "um processo de ampliação das opções das pessoas."
O Relatório deste ano concentra-se no consumo de bens e serviços e analisa como o desenvolvimento humano é afetado positiva ou negativamente. Apesar do notável crescimento do consumo em muitos países, mais de um bilhão de pessoas continuam privadas da oportunidade de consumir para satisfazer as suas necessidades básicas.
O Relatório do Desenvolvimento Humano é publicado em Português com o apoio do Instituto da Cooperação Portuguesa, pela TRINOVA Editora, Rua das Salgadeiras, 36-2° Esq., 1200 Lisboa, Portugal. Telefone: (351) 1 342 06 50; fax: (351) 01 342 07 51.
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