A POBREZA NO SEIO DA ABUNDÂNCIA

A abundância material atingiu níveis historicamente sem precedentes, mas estão aumentando as filas dos sem-teto, dos desempregados e dos famintos nas nações mais ricas.

Brasília, 9 de Setembro de 1998–O Relatório do Desenvolvimento Humano de 1998 entra, este ano, num terreno novo, ao apresentar um sistema inovador para a avaliação da pobreza nas sociedades industrializadas. Este sistema de avaliação revela a existência de privações humanas e de vidas tolhidas pelo analfabetismo, pelas baixas rendas e pela exclusão da vida social instituída.

O Relatório do Desenvolvimento Humano de 1998, encomendado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, verifica que, na totalidade, as nações mais ricas do mundo albergam mais de 100 milhões de pessoas com rendimentos abaixo do nível da pobreza, que mais de 37 milhões estão desempregadas, que 100 milhões não têm abrigo e que 200 milhões têm uma expectativa de vida inferior aos 60 anos.

"Os números são assustadoramente altos no seio da abundância", afirma James Gustave Speth, Administrador do PNUD. "Mas não significa forçosamente o melhor. O progresso tem de ser distribuído de modo mais equilibrado".

O Relatório deste ano apresenta um Índice da Pobreza Humana para os países industrializados que vai mais longe do que a tradicional avaliação das rendas, levando em consideração as percentagens da população que têm uma expectativa de vida inferior aos 60 anos, que são analfabetos funcionais, que ganham menos da metade dos rendimentos pessoais médios e que tenham estado desempregados durante 12 meses ou mais. "Este índice avalia a extensão das privações e da exclusão dos pobres no progresso de um país", declara Sakiko Fukuda-Parr, Diretora do Gabinete do Relatório do Desenvolvimento Humano. "A pobreza não é apenas uma questão de não se ter rendimentos suficientes, mas também de ser privado das oportunidades de participar e de contribuir para a vida de uma comunidade".

Em termos de pobreza humana, a Suécia é o país melhor colocado. Embora seja o 13º entre os 17 países industrializados da Organização de Cooperação Econômica para o Desenvolvimento (OECD/OCDE), em termos de média dos rendimentos, menos de 7% dos suecos vivem em "pobreza humana".

O líder entre os países da OCDE, quer em riqueza material quer em privações materiais, são os Estados Unidos, com o mais alto rendimento per capita e quase 16,5% da população vivendo na pobreza, de acordo com a avaliação feita pelo Índice da Pobreza Humana. Os Estados Unidos estão atualmente usufruindo de uma economia em grande expansão e de uma baixa taxa de desemprego; todavia, um quinto do seu povo é constituído por analfabetos funcionais e 13% da sua população não viverá para além dos 60 anos -- uma percentagem muito superior à de países como a Holanda e a Suécia. O segundo e o terceiro lugares, em termos de pobreza entre os 17 países industrializados, cabem à Irlanda, com 15,2%, e ao Reino Unido, com 15% da população vivendo na pobreza.

"A extensão da pobreza humana pouco tem a ver com o nível médio das rendas", afirma-se no Relatório. Embora o Reino Unido e a Holanda apresentem rendas médias semelhantes, o primeiro tem quase o dobro de percentagem de pessoas que vivem na pobreza: 15% contra 8%.

O Relatório considera que, não obstante o fato de os países industrializados terem atingido a escolarização total, a qualidade da educação ministrada fica aquém das expectativas dos empresários. Embora tidos como "alfabetizados", uma média de 18% dos adultos de 12 países da Europa e da América do Norte revelaram tão baixos níveis de competência que "nem sequer conseguem corresponder às exigências básicas de leitura numa sociedade moderna". Outros 29% não dispõem de qualquer instituição em que possam ser preparados para um emprego qualificado.

O Relatório observa que o "analfabetismo funcional" impede cerca de 21% das pessoas, nos Estados Unidos, 23% na Irlanda e 22% no Reino Unido de executar tarefas básicas como ler as instruções para uso de um medicamento ou ler uma história a uma criança. Há índices comparáveis, quanto ao analfabetismo funcional, referentes a outros países industrializados: Bélgica e Nova Zelândia (18%); Austrália e Canadá (17%); Alemanha (14%); Holanda (10%); e Suécia (7%).

O Relatório verifica que o desemprego entre os jovens de alguns países da OCDE atingiu níveis desconcertantes, incluindo 32% de mulheres jovens e 22% de homens jovens na França, 39% e 30%, respectivamente, na Itália e 49% e 36%, também respectivamente, na Espanha.

Os países adotam caminhos muito diferentes quanto à elaboração de políticas a seguir, mas aqueles que têm conseguido reduzir as disparidades têm seguido uma via consciente que se propõe atingir uma distribuição eqüitativa dos benefícios do progresso. Estas políticas visam assegurar maior equidade no acesso à educação, aos serviços de saúde e ao rendimento mínimo indispensável para evitar a exclusão da comunidade em que se vive.

O Relatório focaliza as oportunidades das pessoas quanto ao consumo de bens e de serviços nos países ricos e nos países pobres. Analisa o consumo desigual no seio dos países e entre eles; o impacto do excesso de consumo e do desperdício sobre o ambiente; as pressões sociais de incitamento ao consumo e a carência de políticas destinadas a apoiar novos padrões de consumo que satisfaçam as necessidades básicas de todos, que reforcem as capacidades humanas, que não comprometam o bem-estar dos outros e que sejam ambientalmente sustentáveis.

Acerca do Relatório:

Todos os anos, desde 1990, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento encomenda a preparação do Relatório do Desenvolvimento Humano a uma equipe independente de especialistas, com o objetivo de proporcionar a análise de questões importantes e de interesse mundial. O Relatório não se restringe à análise da renda per capita para medir o progresso humano, avalia igualmente indicadores como a esperança média de vida, a alfabetização e o bem-estar geral. Sustenta que o desenvolvimento humano é, definitivamente, "um processo de ampliação das opções das pessoas."

O Relatório deste ano concentra-se no consumo de bens e serviços e analisa como o desenvolvimento humano é afetado positiva ou negativamente. Apesar do notável crescimento do consumo em muitos países, mais de um bilhão de pessoas continuam privadas da oportunidade de consumir para satisfazer as suas necessidades básicas.

O Relatório do Desenvolvimento Humano é publicado em Português com o apoio do Instituto da Cooperação Portuguesa, pela TRINOVA Editora, Rua das Salgadeiras, 36-2° Esq., 1200 Lisboa, Portugal. Telefone: (351) 1 342 06 50; fax: (351) 01 342 07 51.

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