O CANADÁ CONTINUA A OCUPAR O PRIMEIRO LUGAR NO ÍNDICE MUNDIAL DE DESENVOLVIMENTO HUMANO

O declínio econômico, os conflitos armados, o HIV/AIDS sufocam o progresso humano em muitos países.

Brasília, 9 de Setembro de 1998—Há cinco anos o Canadá ocupa o primeiro lugar, entre 174 países, no que se refere ao desenvolvimento humano, distinção nunca atingida por qualquer outro país.

Segundo o Relatório do Desenvolvimento Humano de 1998, encomendado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e dado hoje a conhecer em Haia, bem como em mais 100 capitais em todo o mundo, os canadenses ocupam o primeiro lugar na saúde em geral, no nível geral de educação e no grau de satisfação das pessoas comuns face a um nível de vida considerado decente. A França e a Noruega ocupam o segundo e o terceiro lugares, respectivamente.

Mas o Relatório adverte acerca dos conceitos inadequados de "progresso". Estudos recentemente levados a efeito pela OCDE sublinham que 18% dos adultos de 12 países da Europa e da América do Norte "têm níveis de aptidão tão baixos que nem sequer correspondem às exigências básicas de leitura numa sociedade moderna". O nível de alfabetização e de conhecimento aritmético de uma outra fatia de 29% é tão baixo que as pessoas não podem ser contratadas para empregos qualificados.

Em países em desenvolvimento como Barbados, Costa Rica e a República da Coréia, o nível de desenvolvimento humano é minimamente inferior ao de países industrializados como a Grécia, Israel e Itália. Omã, Arábia Saudita, Vietnã e Iêmen fizeram progressos muito acentuados no que se refere à esperança de vida, enquanto o Benim, a República Centro-Africana e o Mali registaram os maiores avanços em matéria de alfabetização de adultos. A República da Coréia e os Emirados Árabes Unidos ocupam os primeiros lugares entre os países em desenvolvimento no que se refere à redução da taxa de mortalidade infantil.

Apesar de o mundo em desenvolvimento, no seu conjunto e no que se refere ao aumento do nível de desenvolvimento humano, ter efetuado maiores progressos nos últimos três decênios do que os países industrializados no último século, o Relatório chama a atenção para o seguinte:

Cerca de 100 países—em desenvolvimento ou em transição econômica e política—viveram graves crises econômicas e 70 a 80 dentre eles têm hoje uma renda per capita inferior ao de 10, 20 ou 30 anos atrás. Nos países em desenvolvimento, 1,3 bilhões de habitantes vivem com menos de 1 dólar por dia. Nas economias em transição, 120 milhões de pessoas vivem nos limites da pobreza com um rendimento de 4 dólares por dia.

O progresso, advertem os autores do Relatório, "é como enfrentar uma estrada cheia de obstáculos—com desafios constantes, novos problemas a superar e com recuos". Apesar dos recuos alarmantes verificados em alguns países, em todas as regiões, em média, verificou-se um aumento do desenvolvimento humano durante os últimos 30 anos, e alguns dos progressos mais rápidos têm acontecido em países em desenvolvimento, como assinala o Relatório. A taxa de mortalidade dos recém-nascidos nos países em desenvolvimento tem vindo a diminuir em mais de metade, desde 1960, ao mesmo tempo que a incidência da subnutrição infantil baixou para uma quarta parte, verificando-se ainda um crescimento, para o dobro, das matrículas em escolas primárias e secundárias.

O Relatório do Desenvolvimento Humano foi criado pelo PNUD em 1990 para centralizar nas pessoas o debate relativo ao desenvolvimento internacional, e não olhando para a renda per capita como único instrumento para medir o progresso humano. Segundo os autores do Relatório, "o desenvolvimento humano" é definitivamente "um processo de ampliação das opções das pessoas" na sua vida quotidiana. "O conceito de desenvolvimento humano proporciona uma alternativa à análise do desenvolvimento, vinculada exclusivamente ao crescimento econômico", acrescentam os autores.

O Relatório demonstra que a renda per capita elevada não é uma garantia de progresso humano. Os indicadores humanos (a saúde, a nutrição, a educação, o acesso à água potável e ao saneamento básico) devem ser analisados com a mesma seriedade com que se analisa os indicadores financeiros e econômicos. Apesar de o Brunei ter o produto interno bruto (PIB) per capita mais elevado do mundo, com 31,165 dólares, ocupa o 35º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano medido no Relatório. Apesar de o Canadá ocupar o primeiro lugar quanto ao desenvolvimento humano, esse país só ocupa o 12º lugar entre os países do mundo com maior rendimento per capita. Dos 174 países abrangidos pelo índice, 98 estão classificados num nível superior à sua classificação em termos de PIB per capita. Segundo o Relatório, este fato sugere que 98 países "converteram a prosperidade econômica em capacidade humana" e fizeram-no com êxito; quanto aos fracassos, são particularmente impressionantes em países como a Costa Rica, a Tanzânia, o Vietnã e a Zâmbia.

A classificação dos 73 países restantes no Índice de Desenvolvimento Humano é inferior à sua classificação segundo o PIB. Este fato demonstra uma falha na tradução da prosperidade econômica numa equivalente vida melhor para a população. Esta situação é particularmente perturbadora em países onde se registra uma maior riqueza como o Brunei, o Kuwait e Maurício. É igualmente desesperante em alguns países muito pobres como Angola, a República Democrática Popular do Laos, o Senegal e Uganda.

"A relação entre prosperidade econômica e desenvolvimento humano não é automática nem direta", conclui o Relatório. Ao contrário, os governos devem envidar esforços concertados para velar para que a vida do seu povo melhore com o desenvolvimento. O mundo deve distanciar-se da preocupação com o crescimento econômico como um fim em si mesmo, que continue a ser predominante nas opções normativas. Deve-se dar prioridade a políticas que promovam o crescimento em benefício dos pobres com a concessão de crédito a pequenas empresas, o acesso a terras para cultivo, à educação e a melhores oportunidades para que as mulheres participem mais ativamente na vida econômica.

Desde a edição de 1995 do Relatório que as mesmas variáveis têm sido utilizadas, quer para obter o índice de desenvolvimento humano quer para apurar o "Índice de desenvolvimento humano ajustado ao gênero", o IDH-G, que analisa a desigualdade face aos progressos obtidos pelos homens e pelas mulheres. Na presente edição do Relatório, a classificação segundo o IDS assinala que, em todos os países, as mulheres têm um nível de desenvolvimento humano inferior ao dos homens. No Canadá, o IDH-G ocupa o primeiro lugar, seguido pela Noruega e pela Suécia, que ocupam o segundo o terceiros lugares, respectivamente. Os Estados Unidos ocupam o sexto lugar.

Relacionado com o IDH-G está a "Medida de poder de decisão ajustada ao gênero", o MPG, que reflete o nível de oportunidades que as mulheres têm na participação da vida política e econômica de um país. A Suécia, onde as mulheres ocupam 40% dos assentos no Parlamento e representam 64% dos trabalhadores profissionais e técnicos, ocupa o primeiro lugar da classificação, segundo a MPG entre 102 países. A Noruega e a Dinamarca surgem a seguir à Suécia, classificando-se em segundo e terceiro lugares, respectivamente. Nos Estados Unidos, que ocupam o 11º lugar, as mulheres detêm só 11% dos assentos nos Congresso e representam 53% dos trabalhadores profissionais e técnicos. Alguns países em desenvolvimento estão melhor classificados que alguns outros países industrializados. Trinidade e Tobago (17º na lista) e Barbados (18º), por exemplo, estão melhor classificados que o Reino Unido (20º) e a Irlanda (21º). Quarenta dos países incluídos no IDH carecem de dados completos ou internacionalmente comparáveis, no que se refere aos fatores que influem na classificação de um país na MPS, o que, em alguns casos, reflete a escassa prioridade que os países concedem à igualdade da mulher na sociedade. "Foram registrados progressos significativos no crescimento da capacidade das mulheres", assinala o Relatório, "mas existe um sério atraso na criação de oportunidades reais para as mulheres".

Acerca do Relatório:

Todos os anos, desde 1990, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento encomenda a preparação do Relatório do Desenvolvimento Humano a uma equipe independente de especialistas, com o objetivo de proporcionar a análise de questões importantes e de interesse mundial. O Relatório não se restringe à análise da renda per capita para medir o progresso humano, avalia igualmente indicadores como a esperança média de vida, a alfabetização e o bem-estar geral. Sustenta que o desenvolvimento humano é, definitivamente, "um processo de ampliação das opções das pessoas."

O Relatório deste ano concentra-se no consumo de bens e serviços e analisa como o desenvolvimento humano é afetado positiva ou negativamente. Apesar do notável crescimento do consumo em muitos países, mais de um bilhão de pessoas continuam privadas da oportunidade de consumir para satisfazer as suas necessidades básicas.

O Relatório do Desenvolvimento Humano é publicado em Português, com o apoio do Instituto da Cooperação Portuguesa, pela TRINOVA Editora, Rua das Salgadeiras, 36-2° Esq., 1200 Lisboa, Portugal. Telefone: (351) 1 342 06 50; fax: (351) 1 342 07 51.

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