Brasília, 13/04/2005 Brasil e África: uma lenta aproximação
Escritor angolano Agualusa diz que brasileiros têm vergonha de raizes africanas e que preferem consumir as produções norte-americanas
ALAN INFANTE da PrimaPagina
O Brasil vive uma contradição cultural fundamentada num inconsciente preconceito social. Ao mesmo tempo em que despreza a arte africana por considerá-la um produto da pobreza, o brasileiro tem seu cotidiano permeado por manifestações com raízes na África, como o samba, o carnaval e a feijoada. Já as criações norte-americanas, vistas aqui como sinônimo de status, são bem aceitas pelas pessoas, principalmente pelas elites.
Assim é o país sob o olhar do escritor angolano José Eduardo Agualusa, que traz algumas impressões de alguém que conhece os brasileiros a ponto de perceber seus comportamentos mais sutis. É bem verdade que ele já morou no Rio de Janeiro e em Pernambuco, mas isso não diminuiu as dificuldades que teve que vencer até conseguir se fixar no mercado editorial brasileiro, após um empurrãozinho do cantor Caetano Veloso, que elogiou seus livros num festival literário.
Agualusa, que está no Brasil para lançar seu sexto livro, o Manual Prático de Levitação, separou um horário na sua agenda para uma entrevista à PrimaPagina. O bate-papo, focado na cultura africana, traz à cena aspectos políticos, econômicos e sociais de Angola.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
O sr. acha que a cultura africana, mais especificamente a de expressão portuguesa, é pouco conhecida no Brasil?
José Eduardo Agualusa — A cultura africana que se faz hoje, seja na literatura, na música, no cinema ou nas artes plásticas, todas essas práticas culturais são ainda muito pouco conhecidas no Brasil, mesmo o Brasil sendo um país de matriz claramente africana — se pensarmos na cultura que chega aos estrangeiros, ela é quase sempre composta de expressões com matriz africana, seja o samba, o carnaval ou a capoeira. Agora, da cultura africana atual, muito pouco chega ao Brasil. Ela chega mais facilmente à Europa. Em Paris, em Londres ou em Lisboa é possível verificar que a grande música que se faz [nesses lugares] hoje é quase toda ela feita por músicos de origem africana. Mas essa música ainda não chegou ao Brasil. Eu acho que ela vai chegar. Acho que já começa a chegar.
Que sinais há dessa chegada da cultura africana ao Brasil?
Agualusa — Os sinais que podem ser notados são pequenos. Acho que estamos no início de alguma coisa nova, tanto na música quanto na literatura. Na literatura, só muito recentemente as editoras começaram a publicar livros de autores africanos. Refiro-me aos de língua portuguesa no caso, pois já havia outros escritores de grande vulto que chegavam aqui antes, como o sul-africano [John Maxwell] Coetzee, Prêmio Nobel de Literatura. Mas os autores [africanos] de língua portuguesa só começaram a chegar ao Brasil em termos comerciais há muito pouco tempo.
A mesma coisa acontece com a música. Há vários projetos de músicos angolanos com brasileiros. São coisas curiosas como temas angolanos sendo recriados por cantores brasileiros. Que eu me lembro como exemplo é um disco [“Na Paz”] da Fernanda Abreu. A primeira música desse álbum é um tema clássico da música popular de Angola, de 1975, do Teta Lando. Mas há também cantores que há vários anos se interessam por temas angolanos, como o Martinho da Vila. Em Angola também. Só no último ano, que eu me lembre, foram lançados pelo menos cinco discos com a participação de músicos brasileiros. Ou seja, já há uma pequena ligação que agora está se intensificando.
Então o sr. acredita que existe espaço também para a literatura africana no Brasil?
Agualusa — Sim, é que a música é muito forte. A música vai à frente das outras artes, chega sempre primeiro. Mas começa a chegar também a literatura. No meu caso, eu finalmente começo a conseguir vender alguns livros no Brasil, a ter algum público brasileiro. O [escritor moçambicano] Mia Couto, que é um fenômeno dentro de Portugal e que está traduzido em muitas línguas e é bastante vendido nos países europeus, também [começa a chegar no Brasil]. Além de uma série de outros autores que começam a chegar agora e de outros que acredito que chegarão em breve. Ou seja, já são alguns escritores importantes da literatura africana com livros publicados no Brasil.
Mesmo nas artes plásticas já começa a haver uma aproximação. Eu estive recentemente em um Festival de Arte Africana em Salvador, onde estava representado um do mais destacados artistas plásticos de Angola, Antonio Ole, que foi muitíssimo bem recebido. Eu pude perceber o grande interesse do público brasileiro pela obra do Antonio Ole. E a partir desses encontros fica certo que outros irão acontecer rapidamente. O que é muito claro é isso: estamos definitivamente à beira de alguma coisa nova.
Mas, para ter uma idéia, de quanto é a tiragem dos seus livros em Angola, em Portugal e no Brasil?
Agualusa — Não tem comparação. Em Portugal a primeira edição do meu livro chegou a 10 mil exemplares e ainda vai demorar muito tempo para eu chegar a esse número aqui no Brasil. Agora, comigo, é verdade que eu já tinha cinco livros publicados no Brasil, que vendiam muito pouco. Apenas um deles tinha tido uma segunda edição, o Nação Crioula. Só que depois da 2º Festa Literária Internacional de Paraty (2004), [no Rio de Janeiro], a situação mudou completamente. Eu costumo dizer que o que aconteceu comigo é AC/DC: Antes de Caetano/Depois de Caetano. Depois de o Caetano [Veloso] ter elogiado meus livros, dois deles foram os mais vendidos em Paraty. O que é extraordinário se for considerado que estavam lá representados alguns dos maiores escritores do nosso tempo. Meu último livro publicado no Brasil vendeu bastante e chegará à terceira edição em nove meses. Portanto, nossos livros começam a vender.
O sr. acha que no Brasil há preconceito à cultura africana?
Agualusa — Há. Isso ainda há. Por várias razões. Primeiro, eu acho que o brasileiro ainda tem uma certa vergonha em relação à África e tem aquela idéia de que da África só pode vir miséria. Por outro lado, no caso específico da literatura, eu creio que também começamos mal. Há algum tempo, por certos interesses, foram publicados livros ruins em Portugal. Eram livros muito marcados pela direção política da época — quando havia uma grande euforia nacionalista na África — e que foram apresentados com algum paternalismo por diversos críticos brasileiros como livros bons. E isso é muito ruim, porque o paternalismo é uma forma delicada, mas terrível, de racismo. E faz muito mal. E fez muito mal a nós. Pois as pessoas leram esses livros apresentados como sendo bons livros, e evidentemente não gostaram, e logo não foram à procura de outros.
Eu creio que agora estamos numa situação completamente diferente. Ou seja, há um interesse comercial. Os editores perceberam que podem fazer dinheiro vendendo bons livros africanos. E é isto que estão tentando fazer. Além disso, fica claro que quando começam a aparecer os primeiros prêmios Nobel africanos, já são quatro, as pessoas começam a olhar de outra forma para a África. E isso está acontecendo agora.
O sr. disse que há preconceito à miséria. E racismo, o sr. acha que tem?
Agualusa — É evidente que existe racismo no Brasil. Há racistas em todos os países do mundo. O que não existe, é óbvio, é um racismo institucional. Existe uma grande fratura racial que corresponde a uma grande fratura social. O Brasil não foi capaz ainda de criar uma forte burguesia de origem africana, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos.
Agora, em contrapartida, o Brasil tem um aspecto muito positivo, ao meu ver, que é a ausência de uma paranóia racial. Existem racistas, existe essa fratura racial e social que precisa ser resolvida. E para isso é muito importante partilhar o poder. Eu acho que qualquer estrangeiro que chega ao Brasil fica chocado e revoltado ao perceber que as pessoas de origem africana e as populações indígenas não têm nenhum poder ou quase nenhum poder político. É importante resolver isso. Porém, uma das coisas boas que o Brasil tem de fato é a ausência da paranóia racial. Ou seja, enquanto nos Estados Unidos para fazer a formação de um governo ou uma simples coletânea de poesias se pensa na porcentagem de brancos, negros e hispânicos, no Brasil isso não acontece. O Gilberto Gil foi nomeado ministro da Cultura não pelo fato de ser negro, mas pelo fato de ser reconhecidamente alguém competente e alguém de quem as pessoas esperam muito. Essa é a grande diferença em relação a um país como os Estados Unidos.
O sr. disse há pouco que o Brasil tem vergonha da África. Em que medida o fato de o Brasil conhecer pouco a cultura africana revela que ele não se conhece?
Agualusa — Isso é verdade. Para se conhecer bem é preciso saber de onde veio. Mas, antes de tudo, eu vejo aí uma contradição no caso do Brasil muito explícita, que é, por um lado, o fato de o Brasil tem vergonha de suas origens negras, sua origem africana, e, por outro lado, exalta essa sua cultura popular todos os dias. Então há aí uma contradição. E uma das coisas curiosas do cenário brasileiro é isso. As pessoas vivem essa negritude, essa africanidade — quando elas comem uma feijoada, vão a uma roda de samba, estão vivendo essa africanidade do Brasil. Mas, por outro lado, continua existindo um certo desprezo e uma certa vergonha a essas origens.
É uma contradição óbvia e muito clara. Principalmente nas elites brasileiras, que muitas vezes são antibrasileiras e muito voltadas para os Estados Unidos. Para mim isso é impressionante. No século 19, por exemplo, Paris era a capital cultural de Portugal e do Brasil. Hoje, a capital cultural de Portugal é Lisboa e a do Brasil provavelmente é a Disneylândia ou Miami. Foi uma má troca. Trocar o [poeta Charles] Baudelaire pelo rato Mickey não é muito inteligente. Agora, isso é uma coisa que se percebe nas elites brasileiras. Essa atração por tudo que vem dos Estados Unidos, mesmo quando é ruim.
Entretanto, mesmo essas elites antibrasileiras, mesmo elas, vivem com grande entusiasmo a cultura popular. Porque mesmo essas elites geralmente gostam de samba, gostam de desfilar no Carnaval. Se por um lado elas têm uma grande atração provinciana em relação a Nova York ou a Miami, por outro lado vivem sua cultura africana sem se darem conta disso.
O presidente Lula iniciou esta semana sua segunda grande viagem à África. Até os dias de hoje, no entanto, há uma grande distância entre o Brasil e o continente africano, seja em termos de informação, cultura ou mesmo economia. Na opinião do sr., essa situação de deve à falta de iniciativas governamentais ou do setor privado?
Agualusa — As duas coisas. Mas isso está mudando. Por um lado, há o interesse manifesto do governo brasileiro, e, por outro lado, a sociedade civil e também as grandes empresas começam a prestar mais atenção à África porque percebem que podem fazer dinheiro com isso. Uma gravadora só vai gravar um músico se perceber que pode fazer dinheiro com ele. A mesma coisa acontece com uma editora de livros, ninguém vai publicar um escritor para perder dinheiro.
Posso falar mais especificamente de Angola. Hoje você vê algumas das maiores empresas brasileiras em Angola. A Odebrecht está muito fortemente envolvida e está fazendo dinheiro. Angola é um mercado extraordinário hoje. É o terceiro país maior produtor de diamantes brutos. É o segundo maior produtor de petróleo da África Negra, depois da Nigéria. E, por outro lado, é um país onde está quase tudo por construir. Portanto interessa às grandes construtoras e às grandes empresas.
Evidentemente o Brasil já disputa esse mercado com outros países muito competitivos, como é o caso da China e a África do Sul, que está ali ao lado. Mas o Brasil tem outras vantagens, tem a vantagem da língua e da cultura. É mais difícil para um empresário chinês ou sul-africano compreender Angola, compreender Luanda. Um empresário brasileiro de uma cidade como Recife, por exemplo, chega a Luanda e encontra a mesma realidade, as mesmas realidades geográfica, física e humana. As pessoas são praticamente as mesmas, as culturas são muito semelhantes, os problemas são semelhantes. Portanto eu acho que o Brasil tem que tomar a dianteira.
Então o sr. acha que, além de tudo, essas ligações e semelhanças culturais podem abrir as portas do mercado da África de língua portuguesa para o Brasil? Podem pelo menos facilitar os negócios?
Agualusa — Exatamente. Isso facilita a vida dos empresários brasileiros. Eles encontram em Angola, sobretudo nas velhas cidades do litoral, em cidades como Luanda e Benguela, uma grande atração por tudo relacionado ao Brasil. Para resumir, é evidente que o angolano normal torce pelo Brasil na Copa do Mundo. Isso é importante para um empresário brasileiro. São pequenas coisas, mas são coisas que depois se revelam importantes. Muitas vezes um empresário angolano pode escolher como seu parceiro um empresário brasileiro e não um chinês não já tanto pelas vantagens econômicas, mas porque são capazes de rirem juntos. São capazes de terem temas de conversa em comum. Sobre futebol, já que eles torcem pela mesma seleção. Enquanto que com o chinês será mais distante. Portanto há um lado humano nessas relações e o Brasil sai em vantagem. |