Rio de Janeiro, 22/11/2004 Celso Furtado: 'Lula está no caminho certo'
Em uma de suas últimas entrevistas, concedida à revista 'Desafios', economista diz que seria arriscado adotar outra política econômica
da PrimaPagina
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva está “no caminho certo” e, se tivesse adotado uma política econômica alternativa, correria riscos comparáveis aos de 1964, quando houve golpe militar no país. A avaliação é do economista Celso Furtado, morto de infarto no sábado, aos 84 anos, em uma entrevista de suas últimas entrevistas, concedida à revista Desafios do Desenvolvimento, uma publicação do PNUD e do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
“As circunstâncias [em que Lula assumiu] determinaram a necessidade de um ajuste fiscal rigoroso, pois era preciso conquistar apoio dos investidores e firmar uma espécie de entendimento tácito com a com a comunidade financeira internacional”, comentou Furtado, um paraibano nascido em Pombal em 26 de julho de 1920. “Se o Brasil não tivesse feito este recuo, deixaria de ser um interlocutor aceito pela comunidade internacional e enfrentaria dificuldades” (leia a íntegra da entrevista).
O economista, um dos intelectuais brasileiros de maior renome internacional, não chegou a dizer que o governo não poderia tomar outro caminho na ocasião, mas alertou que seria um rumo arriscado. “Havia, sim, um outro caminho, mas de alto risco, pois o Brasil não estava preparado para uma confrontação internacional”, declarou. “Se o presidente tivesse escolhido uma outra linha econômica, teria de ter optado por uma equipe totalmente diferente, disposta a levar adiante uma luta muito incerta. Poderíamos voltar a uma situação semelhante à de 1964, com confronto e ruptura”.
Na entrevista, Furtado volta a defender uma política que privilegie o desenvolvimento, mas mostra certo ceticismo sobre a possibilidade de isso ser aplicado no Brasil atualmente. “Não sei se existe lugar para algo semelhante no Brasil atual. Seria necessário que os empresários apoiassem as políticas públicas que resultassem em novas formas de governar. Isto é o mais difícil”. |