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Brasília, 22/05/2009
Crise deve frear parceria de países pobres
Verba de nações ricas para projetos entre emergentes deve minguar, afirma especialista; em turbulência anterior, queda foi de até 62%

Crédito: Agência Brasil/Spensy Pimentel
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O Sul está preparado para a cooperação Sul-Sul?

Cooperação Sul-Sul em tempos de crise
TIAGO MALI
da PrimaPagina

A crise financeira mundial deve ter efeitos negativos na parceria humanitária entre países em desenvolvimento, por conta da diminuição de financiamentos dos países mais desenvolvidos, avalia a cientista política Michele Morais de Sá e Silva, pesquisadora da Universidade de Columbia, em artigo publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo , órgão do PNUD em parceria com o governo brasileiro.

O impacto na chamada cooperação Sul-Sul está no fato de que, na prática, iniciativas desse tipo não têm apenas a participação de países pobres. Cada vez mais, argumenta a autora, essa cooperação é financiada por países ricos, numa operação chamada de triangulação. O Japão e o Reino Unido, por exemplo, financiam programas entre países da África e da América Latina, como a Cooperação África-Brasil em Desenvolvimento Social.

Em texto intitulado Cooperação Sul-Sul em tempos de crise, Michele relembra que em crises mais amenas que a atual as verbas de alguns países ricos — muitas vezes usadas como fonte de recursos nos programas de cooperação de nações do hemisfério Sul — caíram mais da metade. “Enquanto as economias encolhem e custos têm de ser cortados, é muito provável que países desenvolvidos reduzam as AODs [Ajudas Oficiais ao Desenvolvimento]. Por exemplo, Japão, Finlândia e Suécia reduziram suas ajudas imediatamente após desajustes de suas economias no começo da década de 90. A Noruega cortou 10% da ajuda, a Suécia, 17% e a Finlândia, 62%.”, escreve.

Também pode haver mudança de direcionamento no dinheiro das ajudas oficiais de desenvolvimento, avalia Michele. A cientista política pondera que essa verba pode passar a ser destinada ao combate de danos causados às economias pela queda de consumo das nações do Norte. Os setores sociais, diz a pesquisadora, devem ir para o fim da lista de prioridades.

Necessidade de estrutura

Um outro ponto que se soma à crise e pode complicar a evolução da cooperação Sul-Sul, na opinião da especialista Melissa Andrade, é a falta de infraestrutura para esse tipo de iniciativa. “A cooperação Norte-Norte tem sido construída sobre uma complexa arquitetura institucional. Agências bilaterais e multilaterais desenvolveram as bases dessa cooperação, com linhas de financiamento, especialista, linhas de pesquisa, escritórios regionais e acordos logísticos. No Sul, essa expertise não está sempre presente”, escreve Melissa no texto O Sul está preparado para a cooperação Sul-Sul?, também publicado pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo.

A autora aponta problemas de comunicação (os ministérios de desenvolvimento social só têm sites em suas línguas, dificultando a troca de experiência com outros países), de falta de profissionais dedicados ao tema e de estrutura institucional. Ela lembra que o Instituto Social do Mercosul, voltado para esse tipo de cooperação, por exemplo, só foi criado no final de 2008.

“Adaptar políticas de um contexto para o outro exige muita experiência, planejamento, conhecimento do contexto do outro país e diálogo baseado em expectativas mútuas. Tirando os ministros trabalhando em políticas externas, os países em desenvolvimento ainda precisam de mais meios para se engajar em cooperação efetiva”, avalia.

Futuro

Com esses problemas agravados pela crise, é possível esse tipo de cooperação prosperar? A opinião das pesquisadoras caminha na mesma direção: sim.

O Mercosul e a Unasul (projeto que pretende integrar todos os países da América do Sul) são exemplos do compromisso de países em desenvolvimento com mais cooperação, segundo Michele. Embora algumas previsões otimistas do FMI sobre a crise na América do Sul, citadas como argumento no texto dela, já estejam desatualizadas, a autora ainda chama atenção para o fato de que, em momentos de crise, soluções como os programas sociais já adotados no Brasil podem ganhar força para combater os danos na população. Qualquer que seja o cenário, os países em desenvolvimento aprenderam que podem pedir ajuda mútua e trocar conhecimento – o que não pode ser apagado pela crise atual.

A visão é compartilhada por Melissa, que, no entanto, alerta para os obstáculos à ampliação desse tipo de iniciativa. Até que os países do sul desenvolvam a capacidade de lidar com esses problemas estruturais, “a triangulação ainda vai ser necessária para ajudar a construir ligações”, afirma. O necessário, comenta, é que existam investimentos não apenas na parte técnica da cooperação, mas, especialmente, na estrutura dessas iniciativas, para que os países consigam trocar conhecimento de maneira mais fácil.

 
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