Brasília, 12/12/2006 Levar água e luz a todos requer US$ 900 bi
Universalizar saneamento básico e eletricidade no mundo demanda aumento dos investimentos públicos no setor, alerta braço da ONU
TALITA BEDINELLI da PrimaPagina
Universalizar o acesso a água, saneamento e eletricidade em todos os países requer US$ 900 bilhões, segundo estimativa da ONU — valor próximo ao PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil e da Turquia somados. Só para levar energia elétrica a todos é preciso US$ 700 bilhões — mais que o PIB da Índia. Esses números demonstram a necessidade de aumentar o investimento público nesses serviços básicos, que não recebem normalmente a devida atenção, alerta o Escritório de Financiamento para o Desenvolvimento das Nações Unidas.
Esse braço da ONU realiza, em parceria com outras instituições, uma discussão até esta quarta-feira, em Brasília, sobre como melhorar o financiamento para esses serviços nos países em desenvolvimento. Estão em jogo as condições de vida de 1 bilhão de pessoas no mundo não têm acesso à água potável, dos cerca de 2,5 bilhões que não têm saneamento básico e dos 2 bilhões que vivem em domicílios sem eletricidade.
“Permitir o acesso aos serviços básicos é um fator crucial para o desenvolvimento. A eletricidade tem uma relação direta com a produtividade, e levar isso a todos implica a inclusão de todos. Mas não se presta muita atenção na questão da infra-estrutura, porque o retorno desse investimento só acontece em longo prazo”, afirma o conselheiro-sênior do Escritório de Financiamento para o Desenvolvimento das Nações Unidas, Christian Ossa.
Apenas para reduzir pela metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população sem acesso a saneamento (como prevêem os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio), o mundo precisaria sanar uma lacuna atual de recursos da ordem de US$ 10 bilhões a US$ 25 bilhões por ano. “Os países da América Latina estão crescendo muito rapidamente, então a solução não será tão fácil. Por isso, é importante que haja uma cooperação internacional de financiamento para auxiliar os países”, diz Ossa.
A necessidade de expansão da cooperação entre os países foi destacada inicialmente na Conferência Internacional das Nações Unidas sobre o Financiamento para o Desenvolvimento, que aconteceu em 2002, na cidade de Monterrey (México). Nesse evento, foram planejadas três atividades para debater o assunto com especialistas, uma na América Latina, uma na África e outra na Ásia.
A primeira delas, chamada “Fórum Público sobre Financiamento para o Acesso Universal à Água e Eletricidade”, começou na segunda-feira, em Brasília. Ela reúne 34 especialistas, entre funcionários da ONU e do Banco Mundial, representantes de organizações não-governamentais e do setor privado e membros de governos da América Latina, para discutir questões como as formas de mobilizar os recursos financeiros para a prestação dos serviços básicos, os fatores macroeconômicos que devem ser considerados e as maneiras de garantir o acesso sustentável dos bens para as populações mais pobres.
O encontro foi organizado em parceria com o Ministério das Cidades brasileiro, PNUD, Centro Internacional de Pobreza e a fundação Friedrich Ebert Stiftung. Os especialistas se reuniram no primeiro dia do evento e nesta terça-feira para levantar idéias que poderão ser aproveitadas pelos países latino-americanos e serão posteriormente apresentadas para representantes governamentais, para a mídia e para o público em geral, durante uma plenária que acontece na quarta, último dia da reunião.
No Fórum serão mostradas também atividades que se destacaram na América Latina por ajudarem a ampliar o acesso à água e ao saneamento básico. Depois dos outros dois encontros, que reunirão países africanos e asiáticos, as práticas destacadas durante o evento farão parte de uma publicação da ONU, que será distribuída para os administradores públicos de nações emergentes. |