Banco de costureiras ajuda carentes no ES

ONG homenageada com o Prêmio ODM Brasil leva crédito, habitação, saneamento e cultura a comunidades carentes do Espírito Santo

09 Junho 2010

Valmir Dantas

DANIELLE BRANT
da PrimaPagina

Um grupo de 60 costureiras de um bairro pobre de Vitória deu origem a um projeto que, usando metodologia semelhante às recomendadas por organismos internacionais, foi um dos ganhadores da terceira edição do Prêmio ODM Brasil, que distinguiu as melhores práticas destinadas a promover os oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

A iniciativa homenageada foi o Plano Bem Maior, estrutura em que as decisões sobre o que fazer em uma região são tomadas pelos próprios moradores. O projeto teve início com o objetivo de melhorar as condições de oito comunidades pobres da Grande Vitória onde habitam 31 mil pessoas. E só saiu do papel graças à organização não governamental Ateliê de Ideias, espécie de cooperativa e responsável pela iniciativa.

A fim de fazer uma pesquisa na região para saber quais eram as prioridades e colocar o plano em prática, os moradores recrutaram 40 habitantes, que fizeram uma sondagem junto a 884 dos 5.276 domicílios locais. "Os entrevistados reclamavam que, antes, os institutos só faziam pesquisas, sem que nada fosse colocado em prática", diz a diretora-presidente do Ateliê de Ideias, Leonora Mol.

O embrião da estratégia surgiu em 2004. Reunidas no Ateliê de Ideias, as costureiras começaram a registrar seus primeiros lucros. Apoiaram outros grupos de mulheres, que repassavam parte dos ganhos para a organização. Para administrar o dinheiro, foi criado o Banco Bem, um gestor de recursos administrado por um comitê de líderes das regiões envolvidas, e que passaram a ser chamadas de Território do Bem.

Na sondagem, os moradores de oito comunidades da Grande Vitória, no Espírito Santo, responderam a questões que tinham como objetivo esboçar o perfil de cada um deles, seus desejos para o futuro e as mudanças que pensavam ser importantes para o desenvolvimento da região até 2018. As sugestões foram agrupadas em cinco dimensões: econômica, social, cultural, ambiental e política.

Mãos à obra

Depois de identificadas as áreas nas quais poderia atuar o Fórum Bem Maior, formado por líderes de três comunidades (São Benedito, Bairro da Penha e Itararé), os projetos passaram da teoria à prática.

No âmbito cultural, por exemplo, teve início o projeto Nossa História, Nosso Bem. "Os próprios moradores perceberam que muitos dos idosos que habitavam o morro de São Benedito – um dos que fazem parte do Território do Bem – desde que ele foi invadido, há 50 anos, estavam morrendo, e, com eles, a história das comunidades", afirma Leonora.

Foi realizado, então, um trabalho de resgate e registro da história do morro. Os jovens procuravam os mais velhos e conversavam com eles sobre suas recordações e fatos importantes do local. "A intenção do plano é que o Ateliê de Ideias ajude conforme forem surgindo demandas por projetos, e os moradores se encarregam de pôr mãos à obra", complementa.

Outra ação bem-sucedida envolveu a dimensão ambiental. A iniciativa Ecos do Bem procurou tratar da questão do lixo acumulado na comunidade, que agravava o problema das enchentes. "Ensinamos os membros da comunidade a não jogar seus detritos nas ruas, e a separá-los de acordo com o tipo. Formamos educadores ambientais e atuamos junto das associações de catadores também", explica Leonora.

Já a economia local foi estimulada graças à criação da moeda Bem, cédulas lastreadas em real e que podem ser emprestadas pelo Banco Bem – outra iniciativa do Ateliê de Ideias – para moradores, mediante aprovação do comitê de análise de crédito, formado também por integrantes de três comunidades. O equivalente a R$ 10 mil está em circulação na comunidade.

A moeda pode ser usada para girar a riqueza da região, e é aceita por 110 comerciantes locais. Para produtores, o empréstimo pode ser feito tanto na moeda Bem quanto em real.

O plano não poderia deixar de lado a questão habitacional. Serão construídas 24 unidades com preocupação ecológica. "Quisemos dar a eles acesso a uma moradia digna, em vez de deixá-los continuar erguendo puxadinhos, como faziam", explica Leonora. Por isso, os moradores receberam conhecimentos técnicos e são acompanhados de um pedreiro nas obras de ampliação das casas. "Também estamos usando tijolos ecológicos e instalando aquecedores solares nas moradias", acrescenta.