Fogões ecológicos empoderam mulheres indígenas Kaiowá-Guarani

Com baixo custo de implementação, o fogão traz melhorias para a saúde das famílias, além de beneficiar o meio ambiente

Tempo de construção do fogão: 3 dias e meio são suficientes para construir o fogão e a estrutura de cobertura que o protege do sol e da chuva.

A tecnologia social está sendo adaptada pelo PNUD com ajuda do Fundo para alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (F-ODM), criado com doação do governo espanhol.

O Programa Conjunto “Segurança Alimentar e Nutricional de Mulheres e Crianças Indígenas no Brasil” (PCSAN) é realizado por cinco organismos da ONU (PNUD, FAO,OIT, OPAS/OMSe UNICEF), em parceria com o Governo Brasileiro.

03 Dezembro 2012

do PNUD

Ainda não havia amanhecido na aldeia e Delma Gonçalves, 41, já caminhava há duas horas até o local em que os indígenas costumam recolher lenha. O caminho de volta, no entanto, era o mais penoso: sob o sol forte, tinha de carregar nas costas um feixe de 20 quilos de madeira. Dona Delma é uma das indígenas Kaiowá Guarani da aldeia de Panambizinho, a 250 km da capital Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

Durante anos, três vezes por semana, essa foi sua rotina matinal. “Tinha muitas dores na coluna. Eu chegava tão cansada que mal dava conta de cozinhar”, conta Delma.  O fogo para fazer o almoço era feito no chão, de modo precário, com algumas latas para tapar o vento e uma resistência de geladeira improvisada como grelha. 

Além de aumentar as dores na coluna, o fogo improvisado produzia muita fumaça, prejudicando a saúde dos moradores, principalmente das crianças, que sofriam com doenças respiratórias e tinham agravados casos de pneumonia, bronquite, sinusite e asma. Há alguns meses, a construção de fogões à lenha ecológicos de alta eficiência energética tem ajudado a mudar a realidade da família de Delma e de outras dezenas de famílias indígenas na aldeia de Panambizinho. 

Desenvolvida por ONGs parceiras em um outro projeto do PNUD sobre eficiência e sustentabilidade energética na Caatinga, a tecnologia social para a construção do fogão ecológico está sendo adaptada à realidade indígena do Cerrado sulmatogrossense. Ao contrário dos fogões à lenha tradicionais, que levam cimento e ferro na construção, o fogão ecológico utiliza apenas materiais de baixo custo e que podem ser encontrados na própria região como areia, argila, barro e tijolos de barro. 

Esta iniciativa do PNUD faz parte de um programa conjunto com outras agências da ONU cujo objetivo é promover a segurança alimentar e nutricional de mulheres e crianças indígenas no Brasil. Ao todo, o projeto beneficia, direta e indiretamente, cerca de 53 mil indígenas no país. A tecnologia é considerada modelo de sustentabilidade e a intenção é que ela seja usada em outros projetos semelhantes ao redor do mundo. “O intercâmbio de boas práticas é um dos principais objetivos do Programa”, conta Carlos Castro, Coordenador da Unidade de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustantável do PNUD Brasil.

Dona Elza

A família de Dona Elza também é uma das beneficiárias da construção do fogão ecológico. Foto: Gilmar Galache/PNUD Brasil


Os materiais, aliados ao desenho mais estreito da cavidade para a lenha, funcionam como isolantes térmicos naturais, ajudando a reter o calor por mais tempo. A placa de argila que fica em contato com o fogo evita o desperdício de energia, conduzindo calor de forma contínua e prolongada. Como as placas se mantêm quentes por até 5 horas, mesmo depois de extinto o fogo, é possível cozinhar alimentos mais duros sem uma supervisão constante. “Antes não comia feijão. Agora como”, lembra Delma. 

A saúde dos moradores também agradece, especialmente a das crianças. Além de mais nutridas, elas apresentam menos doenças respiratórias com a eliminação da fumaça nociva dentro de casa. Com o fogão ecológico, estes gases agora são levados pelo vento através das chaminés. Para o meio ambiente, os impactos são igualmente positivos. “O uso de lenha traz outras duas vantagens: independência dos fornecedores de gás e a não produção de gás de efeito estufa”, diz Castro. 

A alta eficiência energética do fogão torna possível o uso de gravetos finos, folhas secas, sabugos de milho e cascas de árvore como combustível, que podem ser encontrados nos quintais das casas, onde estas famílias fazem os plantios agroflorestais. Um dos objetivos é que as famílias deixem de usar somente lenha grossa. A lenha mais fina possibilita o manejo ao redor da casa, diminuindo o impacto ambiental.

As longas jornadas de dona Delma para buscar lenha agora se limitam a visitas ao quintal, recolhendo pequenos galhos que caem das árvores. Essa redução do tempo de jornada para buscar lenha, também propicia um maior cuidado com o quintal, com os animais criados e com as plantas cultivadas nele. 

 “Uso o tempo pra cuidar das crianças e da casa. Posso tirar o mato, lavar roupa, varrer o terreiro. Também consigo cuidar da plantação”, conta a Kaiowá enquanto toma seu tereré. A população indígena no Brasil soma cerca de 800 mil pessoas. Os Kaiowá Guarani são a segunda maior etnia do país.

Para os Kaiowás, o fogo tem um significado espiritual: é sinônimo de purificação. Em geral, ele é controlado pelas mulheres, que abraçam a responsabilidade de unir e alimentar a família. É ao redor deste fogo, agora sustentável e saudável, que dona Delma e outras mulheres indígenas de Panambizinho alimentam não apenas as necessidades físicas de suas famílias, mas também uma tradição milenar. 
 
Fogão geoagroecológico Kaiowá-Guarani

Conheça a história do fogão ecológico contada a partir da perspectiva dos próprios indígenas. O vídeo acima foi inteiramente produzido pela Associação Cultural de Realizadores Indígenas (ASCURI), como parte de uma iniciativa do PNUD que trabalha a inclusão digital nas aldeias.
Energia - Saúde - Desenvolvimento Sustentável - Indígenas - Rio+20 - Socioambiental - Agroecologia
Projeto Relacionado
BRA/10/003

 

TÍTULO

Segurança Alimentar e Nutricional de Mulheres e Crianças indígenas no Brasil

 

PROJETO

BRA/10/003

 

ENTIDADE EXECUTORA

ONU/GOV - Programa Interagencial financiado pelo Fundo Espanhol (MDG-F). ONU: OPAS, UNICEF, FAO, OIT e PNUD; GOV: MDS, SESAI (antiga FUNASA), MS, FUNAI, ABC.

 

ENDEREÇO DA COORDENAÇÃO

N/A

 

ÁREA GEOGRÁFICA

Amazonas (Tabatinga, São Paulo de Olivença e Benjamin Constant) e Mato Grosso do Sul (Dourados)

 

UF

NÃO INFORMADO

 

OBJETIVO

NÃO INFORMADO

 

RESULTADO ESPERADO

1. Melhora da segurança alimentar e nutricional das crianças e mulheres na região de Alto Solimões (Amazonas) e no município de Dourados (Mato Grosso do Sul), Brasil 2. Povos Indígenas empoderados para exigir seu direito humano à alimentação adequada e saúde, e instituições públicas treinadas e fortalecidas para desempenhar suas funções. 3. Diagnóstico, monitoramento e avaliação da segurança alimentar e nutricional das populações indígenas realizados

 

RESULTADO OBTIDO

Melhorar a Segurança alimentar e nutricional de crianças e mulheres indígenas

 

DATA DE INÍCIO

01/02/2010

 

DATA DE TÉRMINO

NÃO INFORMADO

 

DATA DE CONCLUSÃO

30/06/2013

 

ORÇAMENTO

Total: US$6,000,000.00 – Fundo para o Alcance dos ODM (MDG-F) Total implementado até 2010: US$ 64364,51 2011 – US$ 227.713,16 (Valor estimado)

 

UNIDADE

Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável Responsável no PNUD: Carlos Castro

 

LINK

NÃO INFORMADO

 

ENCERRADO

NÃO