“Vocês têm negociado durante toda a minha vida. Não podem me dizer que precisam de mais tempo”*. Estampada na camiseta de um participante da Youth Blast – Conferência das Juventudes para a Rio+20 –, a frase dita por Christina Ora, uma jovem ativista das Ilhas Salomão durante a COP-15, em Copenhague, mantém-se atual e resume o sentimento de muitos desses jovens em relação à Rio+20: urgência.
“O tempo agora é de implementação, não de negociação”, avalia o francês Sébastien Duyck, que ostentava a frase em sua camiseta neste domingo (10), durante a abertura da Youth Blast. A crítica endossada por Duyck, que integra a ONG Rio+twenties, volta-se especialmente aos compromissos ambientais que vêm sendo firmados desde a Eco-92 e que, segundo ele, estão muito aquém do esperado.
Nesta Rio+20, entretanto, o francês acredita que muitos outros temas, não apenas os acordos ambientais, devem ser discutidos. Um deles é a governança. “Governança é o caminho para chegarmos a decisões em nossas sociedades, seja como uma sociedade global, nacional, regional e local”. (...) “Se tivermos boa governança e processos de decisão responsáveis e transparentes, há uma probabilidade muito maior de chegarmos a decisões políticas sustentáveis e representativas”, acredita Duyck.
Jovens brasileiros que participaram do evento também concordam que o momento requer ação. Edgleison Rodrigues, de Fortaleza, é enfático: “O planeta está sofrendo. É urgente tratarmos de desenvolvimento sustentável”, afirma. Ele destaca, entretanto, que da Eco-92 até hoje, houve uma evolução na preocupação com a temática ambiental, que hoje deve englobar três aspectos: o econômico, o social e o ambiental.
“Este é um momento estratégico, em que a juventude pode dizer o que quer e o que precisa ser dito. Estamos aqui trazendo as vozes dessas comunidades”. Edgleison é um dos 52 delegados que representará a juventude na reunião de cúpula oficial da ONU na Rio+20. Aos 19 anos, ele carrega em si o sentimento de urgência, “o momento é agora”, sem, porém, esquecer que as decisões aqui tomadas devem, essencialmente, levar em consideração uma visão de longo prazo.
Para isso, o grupo de Edgleison – Monitoramento Jovem de Políticas Públicas (MJPop), um projeto da ONG Visão Mundial – trouxe para a Youth Blast 40 jovens dispostos a levar aos líderes mundiais uma síntese dos principais problemas apontados em uma pesquisa sobre o tema e recomendações para a construção de uma “sociedade mais justa, fraterna e harmônica com o meio ambiente”.
Na pesquisa, os temas destacados como mais relevantes foram: segurança alimentar e nutricional, estrutura comunitária, educação, saúde, mudanças climáticas e participação.
Youth Blast
A Conferência das Juventudes, evento que conta com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), é a primeira atividade oficial que antecede à Rio+20. Os primeiros dois dias (7 e 8) foram marcados pela reunião de jovens brasileiros. Outros três dias (10 a 12) contam com participantes de outros países: 122 no total, vindos de todos os continentes. A expectativa é de que até o final do encontro passem pelo evento cerca de três mil jovens.
Na abertura oficial das atividades com o público internacional, neste domingo (10), o Coordenador Residente do Sistema ONU no Brasil, Jorge Chediek, ressaltou a importância da participação da sociedade civil nas discussões da Rio+20. “Não podemos deixar que interesses individuais superem os coletivos. Sem a intervenção ativa da sociedade civil, incluindo a juventude, os líderes terão relutância ao estabelecer compromissos”, avaliou. Chediek lembrou que a juventude atinge atualmente 27% da população mundial – são 1,8 bilhão de pessoas entre 15 e 29 anos – a maior quantidade de jovens já vista na história mundial.
Pedro Telles, da ONG Vitae Civilis e um dos organizadores da Youth Blast, também mencionou a importância da participação e da mobilização, em especial dos jovens, no processo da Rio+20. “A Rio+20 vai muito além da conferência oficial dos chefes de Estado. A ONU, sozinha, não é suficiente, a sociedade civil organizada, em todas as suas instâncias, deve se mobilizar e fazer a sua parte”, disse.
O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, destacou que o ser humano deve ser o centro da política de desenvolvimento. “O crescimento econômico é fundamental para dar dignidade à população, mas o modelo de crescimento deve contemplar inclusão social e preservação ambiental”, disse. Carvalho afirmou, ainda, que o fato da Youth Blast ser o 1º evento da Rio+20 deve ser encarado como um símbolo – de que “os jovens são os precursores da mudança”.
A Youth Blast ocorre até terça-feira (12), no Centro de Convenções Sulamérica, bairro Cidade Nova, no Rio de Janeiro, com uma série de plenárias, discussões em grupo e atividades autogestionadas. Na quarta-feira (13), os 52 delegados jovens que representarão a juventude na Conferência Rio+20 se reúnem para discutir a estratégia global e as mensagens que serão levadas aos líderes na reunião de cúpula, de 20 a 22 de junho.
* Frase traduzida da original, em inglês: “You’ve been negotiating all my life. You cannot tell me you need more time” (Christina Ora, Copenhagen, December 2009)